Crônica de Davi Defensor - O monstro

"Este conto é do escritor Davi Defensor, serve para algumas pessoas refletirem sobre seus atos e sobre se auto-criticar, muito bom, achei legal colocar ele aqui no blog, este conto pertence ao livro "Ponte dos Sonhos" e os direitos autorais são do autor , que permitiu que o publicasse aqui.





Davi Defensor
Estudante de Jornalismo, nascido em São Paulo, escritor e poeta.

O mostro
Eu caminhei sob as trevas, num buraco chamado abandono, muitos estavam nesta mesma estrada. Alguns me abordavam, mas não tinha nada a oferecer, estava vazio como um vaso sem decoração, sem flores ou paixão.
Eu pensava no que foi, e no que poderia ter sido, eu cozinhei meu passado, uma comida amarga que não satisfaz o coração e por muito tempo esta foi minha dieta. Minha bebida eram as vozes dos que me traíram e me arrancaram a esperança do  humano no verdadeiro.
Encontro-me com o que não sei ser ,alguém que segue adiante apesar da dor.Encontro-me com o que não sei presentear,um perdão a oferecer, a mão a estender.Eu me coloco sob uma cruz, um sangue manchado, espalhado, sem achado.
Eu quero adormecer meus sonhos são pesadelos.        
Eu quero esquecer mas meu coração gravou a ação.
Eu quero viver mas a porta não quer me encontrar.
Precipitei num buraco mais cruel que esta estrada. Alguém me puxou pela mão. Era um mostro de cor mais negra que a noite. Dizia coisas, que nunca saberei entender.Suas unhas me cortavam como faca seu cheiro me enojava, seu sabor era fel.
Agarrado por aquela coisa, em seus braços magros que mais pareciam barras de ferro eu estava preso. Seu corpo era gelado como pólo sul, sua fome do tamanho da África, sua sede maior que a do nordeste, sua alma mais podre que o Tietê. Ocorreu me ser um humano. Desesperei-me em querer me livrar, o empurrei com toda força e me lancei para fora do buraco.
Respirei aliviado e caído, caminhei nesta estrada dura, ao som dos gemidos da coisa, uma angustia maior que a minha, mais profunda que o abismo e  mais misteriosa que Universo.Retornei não sei o por que mas eu voltei correndo. Joguei-me sob as margens daquele buraco sujo e minha mão se levou até aquele mostro inquieto. Ele a agarrou como uma criança que busca socorro no pai, sua alma se me apagou como imã ao ferro. Suas unhas me cortaram a sangrar, por dias eu vomitei, quase não agüentei o sol descondido, era forte e o cheiro mais que a morte.
Minhas costas foram sua carona.
Eu parei, ele parou.
Onde comi ele comeu.
Onde sofri ele sofreu.
Onde me perdi ele se perdeu.
Onde falei, ele finalmente falou: gratidão esse som ecoou.
                Onde deitei ele deitou.
Recolhi-me se recolheu.
Do que me cobri se cobriu.
A chuva então nos avistou e se derramou suave, purificação da alma e do corpo.Meu mostro caiu ao chão como se suas asas se abrissem para voar, libertando-me do fardo.
Camadas de dor foram caindo do seu coração. Despencando o passado da sua mente. Derretendo a amargura e o ódio. Limpando sua alma das trevas do abandono e da solidão.
Olhos se lhe apareceram, pernas e braços humanos. Mãos fracas mais firmes, pés para novos caminhos, cabelos, orelhas eu fui me alegrando meu mostro era um ser humano. Mas logo fui também me assustando passos para trás eu fui dando. A minha frente em pé forte e bonito como se estivesse renascido. Era eu. Era eu mesmo a quem tinha salvado...eu ajudei, eu amei, dei de comer, acolhi,respondi  a um desconhecido, a alguém que não me era humano e no fim eu estava salvando a mim.

Davi Defensor
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Um comentário:

  1. Parabéns Davi Defensor, pelo belíssimo conto,muitas das vezes culpamos o exterior por tudo, e esquecemos de enxergar o monstro que ás vezes, insiste em habitar em nós.Parabéns Izabelle Valladares, pelo belo trabalho que faz, nos ajudando a ter nossos nomes divulgados, e nosso trabalho reconhecido, ao invés de olhar só para o próprio umbigo, você é nota mil, sou sua fã!
    Mulher linda e maravilhosa!
    Fica na paz!

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