Literatura como um processo às vezes árduo

Senhores escritores,

Inicio, na condição de escritor e de professor de Português, com mestrado concluído em Língua Portuguesa, uma série de artigos que acredito possam ser úteis a todos os interessados na arte de escrever criativamente, a que todos chamamos literatura.
O objetivo não é fazer escritores, tampouco corrigir ninguém. A ideia central é mexer com as consciências de quem escreve, a fim de que entendam uma produção literária como algo essencial à cultura de um povo, não apenas como mero entretenimento irresponsável, que pode ser feito de maneira absolutamente amadora, sem preocupação mínima sequer com a correção gramatical.
Devemos sempre, a meu ver, atentar para o fato de que capricho não significa apenas escrever com letra de mão bem feita, algo que uma digitação em computador resolve, já que não há muita possibilidade de compormos garranchos com letras já desenhadas para um processador de textos de um computador. Os erros grosseiros estarão no conteúdo, na estrutura formal dos textos, na falta de imaginação e de leitura de quem acha que é escritor.
Não quero outorgar-me o rótulo de conhecedor absoluto de tudo. Não me considero nada além de um estudioso. Busco compenetrar-me, cada vez mais, das dificuldades do idioma, apenas isso. E - creiam-me! - a dificuldade não está em desvendar regras nem em aplicá-las, mas em convencer a quem quer escrever que elas são úteis.
O problema maior não é rever textos nitidamente mal escritos, do ponto de vista formal. Explicar para um pretendente a escritor que "eles não tinham nada a fazer" é o correto, não o que ele escreveu - "eles não tinham nada há fazer" -, às vezes é tarefa quase impraticável.
Isso ocorre por qual razão?
Não quero ser polêmico, nem agressivo. Não me dirijo especificamente a nenhuma pessoa, em particular. Não quero também ser covarde de não apontar erros, de maneira - digamos - mais específica. Apenas reservo-me o direito de, aqui, neste espaço, tratar de generalidades, porque não há nenhuma necessidade de expor ninguém a nenhum tipo de avaliação pública. O que pretendo é expor aos interessados a necessidade de estudarem com afinco o instrumento que têm à disposição para uso, que é a língua portuguesa.
Costumo ser franco e corajoso para apontar erros, diretamente a cada autor. Já recebi muitas respostas enviesadas e adjetivos que não se justificavam, simplesmente porque o autor se julgava dono absoluto do idioma. Não é bem assim que as coisas funcionam, infelizmente. A língua é um patrimônio social, que pode ser utilizado individualmente, mas há alguns limites a serem observados. A comunicação é um deles, o que remete diretamente ao leitor.
Em termos mais práticos, sem tantas generalidades, não podemos, sem permissão da imensa maioria dos leitores, criar a esmo o que queremos. A permissão não é algo burocrático, passasdo em cartório e assinado por mais de 200 milhões de usuários do Português. Não é isso o que pretendo afirmar. Ela é algo social, traduzido antropologicamente em costumes.
Para propor e fazer valer uma alteração, a língua, que costuma ser conservadora, leva muito tempo, algo que ultrapassa gerações às vezes. Vários fatores colaboram para isso. No caso da criação, o que determina as mudanças pode ser um valor a mais que o escritor agregue. Tal valor pode ser chamado de prestígio, em muitos contextos. Sem prestígio, um mero iniciante não pode errar e achar que está fazendo um erro criativo e, com sua genialidade, ajudando a expandir o idioma.
Muita soberba existe no uso do idioma, principalmente por pleiteantes a escritores. O Brasil é pródigo em novos ficcionistas. Publicamos títulos em número igual ou maior do que os lugares do mundo que mais editam livros, como é o caso da cidade de Barcelona, que é o único lugar do mundo que edita mais que o Brasil. A vantagem é que lá, na região da Catalunha, província da Espanha muito rica e próspera, onde a educação é mais séria do que aqui, no Brasil inteiro, há muitos leitores mais do que no Brasil todo. Imaginem os senhores novos escritores que apenas num bairro menor do que o bairro paulistano de Moema, localizado em Paris, o Quartier Latin, há mais livrarias do que no Estado de São Paulo.
Então, temos um paradoxo: produzimos muitos escritores ou pretendentes a escritores, mas não conseguimos convencer quase ninguém a lê-los. Então, para que serve escrever? E por que os escritores brasileiros são tão soberbos, como a experiência de muitos editores têm apontado?
Se eles são tão geniais, por que quase ninguém quer lê-los?
A aproximação com a ignorância escancarada dos brasileiros não faz melhor a literatura, tampouco produz mais leitores, em número expressivo. Quando eu me refiro à aproximação com a ignorância, refiro-me aos escandalosos erros cometidos na linguagem, que proliferam entre os novos pretendentes à literatura, mas também em algumas estrelas.
Ninguém quer rever. A gramática pode ser considerada amarga, especialmente por quem não sente nenhuma atração por ela e até se incumbe da tarefa de querer ensiná-la. É lamentável, sim, ver que muitos professores de Português não gostam da própria língua portuguesa. Ocorre, porém, que revisão é fundamental para o bom nível de entendimento de um texto.
Este artigo inicial tem o objetivo de ser um alerta. Os próximos tratarão de questões eminentemente técnicas. Não citarei nomes, também apenas tentarei transcrever trechos sem vinculação direta a títulos de obras, para não ferir suscetibilidades.
Apenas peço uma coisa a todos os escritores: releiam, ao menos, o que escrevem. Também acredito que não lhes será oneroso reservar um tempo de estudo do idioma, de vez em quando. Não é aceitável um escritor de bom nível escrever "parece-se", quando o correto, na frase, seria "parecesse". Isso não é boa escrita, é quase analfabetismo.
Talvez seja possível entender como um cidadão como o Tiririca conseguiu ser o candidato mais votado para um importante cargo público como deveria ser a função de deputado federal. Quem é o palhaço verdadeiro nessa história ou tragédia brasileira?
Com um nível tão deplorável de escrita, que os gênios soberbos acham que é boa literatura, sem ao menos cuidar de uma simples revisão gramatical, como podem reclamar de um presidente que não fez faculdade ou de um deputado que é tido como analfabeto?
Não temos direito a nada, se não conquistarmos, por mérito, qualquer direito.
O esforço para escrever bem é enorme. A literatura exige muita disciplina intelectual, muito gosto por chegar a um padrão aceitável, muita coerência, muito desenvolvimento de ideias, muita busca pela originalidade, total dedicação a alcançar um estilo próprio. Essas coisas não se conseguem em semanas, mas em muitos meses e anos de dedicação intensa, cotidiana, constante.
Se meu texto soou antipático, quero afirmar uma última ideia: a tão propalada humildade que o brasileiro parece adorar, ou não votaria em massa no Tiririca, é uma falsa qualidade. Quem conhece algo e não o divulga acaba morrendo com esse conhecimento. O que se esconde numa falsa modéstia pode enganar muita gente e prejudicá-la. De nada adiantará ao povo de São Paulo, o estado mais rico da federação brasileira, aquele que deveria ter as melhores escolas, contar com um deputado federal que não saberá interpretar uma lei, nem propor nada de útil para o povo que nele votou e para quem deverá aturar esses males de nossa democracia medíocre. Ele parece humilde, mas tem uma proposta mercadológica muito forte por trás de si. Fomos enganados pela palhaçada publicitária que foi montada em torno de seu nome. Alguém protestou, todos pagarão a conta, que não será pequena. Não temos mais condição alguma de cobrar que deputados ganham mais de R$ 80.000 por mês, que têm mordomias, etc. Se quisemos eleger um despreparado, vamos reclamar de quê?!
Temos que nos educar, sempre. Não podemos ceder ao baixo nível, à ignorância, à pouca qualidade. Nossos textos funcionam como cartões de visita. Se apresentamos algo com boa aparência, correção, elegância, temos um efeito em quem os recebe superior a cartões borrados, mal escritos, sem informação precisa.
Se tivermos que suar para compor textos melhores, não usaremos tal esforço inutilmente. Quando algum aluno escreve com letra ruim uma redação, eu costumo dizer que ele não alterará sua personalidade se decidir caprichar na letra. Ele manterá sua personalidade, mas com mais capricho. Na literatura ocorre o mesmo: se as ideias melhorarem, se houver pesquisa, se houver estudo, se o texto for bem escrito e revisto, o escritor veiculará suas pretensões comunicativas e ficcionais com muito mais capricho e possibilidades amplas de ser muito mais bem aceito pelos leitores.
O que está faltando não é apenas revisão, entendam! Ela é um dos problemas iniciais que eu aponto. O pior são as ideias gastas, que são veiculadas como achados geniais. E, se o escritor ganha um premiozinho em um concurso inexpressivo, então, poucos saberão segurar sua empáfia! Já recebi a antipatia de vários candidatos a gênio que não se conformavam quando eu lhes mostrava que o que escreviam não era original, que tinha um tratamento muitíssimo comum, não era nada de excepcional. O problema é que outros lhe outorgaram um prêmio. A tarefa de modificar quem não quer ser mudado é realmente árdua.
Então, proponho-lhes: não fiquem pensando no teor do que escrevi. Pensem em vocês. Voltem-se um pouco para o seu narcisismo! Encarem a si mesmos no espelho da gramática, da originalidade, da técnica. Busquem aprimoramento! Vocês até me repudiem, se for o caso. Peço, mesmo, que me esqueçam, que fiquem no social do que eu escrevo, na língua geral. Cultivem-na, com carinho. Ela pertence a mais de 200 milhões de usuários espalhados pelo mundo. Não é patrimônio de nenhum gênio.
E, antes que eu me esqueça de algo importante: leiam!
Ler é o principal caminho para quem quer ser bom escritor. Ler autores consagrados, ler textos didáticos, ler jornais e revistas de boa qualidade, ler o mundo, ler não ficção. O importante é obter ideias. Tenho visto muita gente copiando dramalhões da televisão, aquelas coisas de telenovela. Ou imitando mal e porcamente a língua oral. Dói muito a um revisor ter que percorrer originais que não se ombreiam com os maiores escritores, como os autores dos maus textos acham de suas criações, mas com redações primárias, trabalhos sem expressão de escola, detestáveis produções de nenhum quilate.
O Brasil é uma terra que produz muitos literatos. Nós não sabemos nos divulgar no exterior, talvez por esse motivo não tenhamos ainda obtido nenhum Prêmio Nobel. Produzimos muito e, em muitos casos, obras maravilhosas. Mas também produzimos muita obra descartável, sem possibilidade de reciclagem imediata, verdadeira poluição literária. Temos que, por amor à sustentabilidade de nossa literatura, de diminuir drasticamente a poluição que produzimos.
Então, não pensem em mim, pensem em seus próprios textos.
Você aí, escritor ou candidato a escritor, ou você, escritora ou candidata a escritora, acha que realmente escreve bem? É criativo ou criativa, tem estilo instigante, é original? Faz tudo com correção e elegância? Sabe ousar na ficção?
Vamos, seja sincero, seja sincera! Ou afunde-se na sua arrogância, que da minha eu cuido, pode deixar!
Um abraço a todos, sem falsa humildade, mas com consciência.
Claudionor Aparecido Ritondale
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