A origem :1802, África do Sul- Lugar hoje conhecido como Cape Vidal - Nação Zulu

 Conto Publicado no Livro Raízes - Lançado no Brasil e em Angola (Protegido pelo Copyright)


A origem        
             1802,  África do Sul-  Lugar hoje conhecido como Cape Vidal


             Ano com temperaturas altas.
             O calor fazia com que os habitantes da tribo Lengani não dormissem, não era só o calor que incomodava, o medo de feras atormentadas pela alta temperatura também era presente, e os guardiões tinham que estar preparados para possíveis ataques.  Os guardiões eram jovens, Shaka era um deles, um rapaz que era hostilizado pela comunidade  juntamente com sua mãe, por ser um filho bastardo do Rei da tribo, apesar de todo o sofrimento e das noites em sentinela Shaka gostava  de ser um guerreiro, e mesmo tendo apenas treze anos, preferia  que lhe dessem cargos de vigilância e levava a sério a sua função,.
Herdou de seus ancestrais o amor ás suas raízes e aprendera a lutar e a respeitar seus deuses e antepassados.
Suas origem era para ele era o que havia de mais importante.
Quando se está em comunhão com suas raízes, tudo é perceptível no ar, se a savana se move, se os animais estouram , se o perigo espreita, se somos a caça ou se somos os caçadores, e Shaka, tentava estar atento as suas raízes e em seu momento sozinho na vigília noturna, pedia proteção não só para si, mas para seu povo, sonhava com a grandeza de uma pátria sem invasões, ou de uma tribo unificada, aonde os líderes comessem, dormissem e lutassem com o povo,com igualdade e aonde houvesse somente guerreiros.
Na calada da noite, Shaka ouviu um som diferente naquele lugar, um estampido, com um clarão, que não se parecia com nada que já tivesse ouvido antes, conhecia bem a Savana, não poderia invadir naquela hora, por que poderia ser facilmente devorado por hienas ou leões, sabia de onde o som tinha vindo, adquirira a incrível captação de distancia pelo olfato e ao colar o ouvido na terra quente e úmida, pode sentir pés tocarem a terra, e não eram poucos e nem estavam a muitos quilômetros de distância, sabia que não eram pés de invasores de outras tribos vizinhas, eram pés calçados.
Shaka já havia ouvido falar de um povo de cor diferente que invadia as tribos, levando os homens e mulheres mais fortes, fazendo com que líderes e reis, se curvassem e aceitassem suas ordens e novas leis, inclusive idiomas,  aprisionando-os em navios , provavelmente para virarem comida de  monstros marinhos, por que nenhum deles voltava, mas desta vez seria diferente, se os homens estavam em sua terra para buscar os seus, eles desta vez  encontrariam um guerreiro á espera , encontrariam uma tribo de luta, encontrariam um homem em corpo de menino.Encontrariam Shaka.
O dia clareou e Shaka se esgueirou até o local aproximado do som, chegou á praia e observou o que acontecia, muitos homens acorrentados e amarrados uns aos outros guiados por homens de cor branca, vestidos e com armas que Shaka nunca tinha visto, os homens fortes e grandes se rendiam ao estrondo que suas armas faziam e pela primeira vez em sua vida Shaka viu uma arma que cuspia fogo e barulho, ele tremeu da cabeça aos pés, e o medo de ser notado onde estava naquele momento gelou o coração dentro do seu peito.

Algo chamara a atenção de Shaka, ao longe, seu irmão paterno Zulu, Barantoho era um dos homens aprisionados, ele não podia acreditar no que seus olhos viam, Barantoho era um dos homens mais fortes da tribo, Shaka lembrava-se que seu pai sempre o usava como exemplo e sempre apontava Shaka como um reles verme perto de Barantoho, e lá estava ele com os pés, mãos e pescoços acorrentados a outros guerreiros da tribo, os brancos os enfileiravam e as mulheres que estavam do outro lado, choravam e lamentavam suas raízes.
Shaka não entendia, a terra era deles, como os brancos chegavam e os levavam daquela maneira, e que armas eram aquelas que eles usavam Shaka nunca havia visto o ferro em sua vida, todas as armas que conhecia eram feitas de madeira e de pedra.
Shaka viu Kiantara, mulher de Barantoho junto a outras mulheres. Shaka gostava dela, não gostou de vê-la acorrentada daquela forma, ela era uma princesa da tribo Xhosa, seu pai foi um dos maiores chefes daquela região da África, diziam os antigos que ele havia dizimado uma tribo inteira de homens brancos que tentaram invadir suas terras para escravizá-los , e Kiantara tinha sua inteligência e dignidade, e olhava altivamente para seus algozes naquele momento.

Foi quando um dos homens chegou perto de Kiantara e tocou-lhe os seios, e se aproximou mais dela e beijou-lhe os lábios, e fez sinal para que ela fosse desacorrentada, os homens rapidamente a soltaram, foi quando o pior aconteceu, o homem branco deitou Kiantara ali nas areias na frente de todos os outros, inclusive da sua sogra que também se encontrava acorrentada e para um Zulu, ou um Xhosa não havia ofensa maior que ser tocado em frente ao seu ascendente ou ao ascendente do seu marido, e começou a arrancar-lhe as poucas vestes que usava, deixando-a nua e expondo seu corpo magro a todos que estavam presentes naquele local, foi quando Barantoho percebeu o que aconteceria e avançou mesmo acorrentado em direção ao homem branco e enroscou-lhe o pescoço com as correntes que envolviam suas mãos, estrangulando-o com toda sua força e fazendo com que o som dos ossos  se  quebrando  ecoasse pela praia.
 O silencio imperou por alguns minutos, e antes que uma revolta acontecesse, os homens colocaram sua potente arma em uso, disparando um tiro contra Kiantara, Shaka não tinha mais nenhuma reação estava parado, perplexo, assistindo a tudo sem nada poder fazer, o gemido de lamento de Barantoho fora ouvido até nas tribos vizinhas. Como eles puderam desonrar sua família e matar sua mulher?
Mas o que estava por vir era ainda pior, o corpo sem vida de Kiantara, jazia sobre a areia em frente aos seus parentes, quando vários dos homens presentes , violentaram o corpo já sem vida de Kiantara frente aos olhos de todos enquanto seguravam a cabeça de Barantoho, para que não pudesse desviar os olhos do que estava acontecendo com sua esposa, e para que servisse de exemplo aos outros prisioneiros para que não tentassem mostrar sua força contra os brancos.
Todos olhavam chocados.
Shaka mesmo ao longe podia sentir o odor fétido dos homens que possuíam um após o outro o corpo agora gelado de Kiantara, de onde estava ouviu o líder dos brancos dizerem:
_Não o matem!Deixe-o ver sua vergonha até o fim. No caminho vamos jogá-lo aos tubarões.
E um á um, os guerreiros da tribo foram sendo levados sem ação até o navio, eram mais de mil homens e mulheres, e menos de 300 homens brancos, mas com aquela arma que tinham não havia o que ser feito.
Shaka viu todos entrarem no navio, e viu o corpo de Kiantara, humilhado e abandonado na areia.
Esperou que o navio desaparecesse na costa, pediu aos seus deuses que uma forte tempestade, levasse o navio ao fundo e todos morressem inclusive os negros que ficaram inertes frente à violação do corpo de Kiantara.
Shaka foi até o corpo de Kiantara e enterrou-o, e dançou por sua alma, e cantou por sua alma durante toda a noite, sem temer as feras que poderiam se aproximar, sem temer se tornar prisioneiro de alguma outra tribo.
Ao amanhecer, a luz do sol veio de encontro à retina de Shaka, Lentamente os olhos  de Shaka se abriram , mas pela primeira vez, os olhos que  o Sol encontrou, não eram mais os olhos de um menino cheio de coragem,não eram os olhos de um rapaz cheio de sonhos de um mundo de paz,  eram os olhos de um homem com o coração cheio de amarguras, eram os olhos de um guerreiro que havia visto uma tribo inteira sucumbir à força das armas de fogo, eram os olhos de um guerreiro que não aceitaria a fraqueza do seu povo em seu coração,eram agora os olhos da Lince, as presas das hienas e o cérebro de um estrategista,  o desejo de Shaka era que lutassem até o último ficar vivo, que morressem todos se preciso fosse, mas que não permitissem o que ele viu com seus próprios olhos.
Shaka tomava naquele momento uma decisão.
Não serviria a mais nenhuma tribo de covardes.
Não esperaria os 20 anos para se tornar um guerreiro.
Iria unir tribos de valentes e massacrar tribos de covardes.
Nasceria ali, do seu suor, da sua força, a maior tribo negra da áfrica do sul.
Shaka não era mais o filho da tribo kwasazulu-natal, Shaka não era mais o filho da tribo Lengani.
Shaka era sua própria tribo.
Shaka Zulu iria juntar o maior número de guerreiros já visto comparado até mesmo a Alexandre “o grande” da Macedônia.
Shaka não era mais um menino guerreiro, de uma tribo que viu atrocidades.
Shaka agora era líder de toda uma nação que não aceitava os fracos e os covardes.
E do ódio de Shaka ,nascia ali, á partir daquele instante uma nação:
A nação Zulu.
Nota da autora: Apesar da utilização dos nomes verídicos dos personagens, locais, datas e basear-se na ocupação da África do Sul pelo imperialismo britânico e Bôere ,os fatos narrados nesse conto, não são fatos históricos, são narrativas passadas por descendentes.
 Izabelle Valladares

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