Por que mudei a minha opinião sobre as Cotas Negras?

Caros leitores abrir o leque de opinião sobre as cotas negras sempre é um assunto delicado, tanto para os negros, quanto para as demais raças que sentem-se afetadas ou beneficiadas com as cotas.
No ano de 2010, estive na Áustria em um debate com alguns membros da ONU, defensores das Cotas, Educadores contra e a favor, todos com excelentes argumentos, e eu estava na ala totalmente contra, mas o motivo era fácil, meu convívio até então, com as pessoas que realmente eram afetadas pela existência das cotas era muito Limitado. Apesar de ser neta de um Jornalista e fazer parte de uma verdadeira e expressiva minoria de negros da minha faixa etária com avós com curso superior, não entendia e não compreendia a verdadeira necessidade dessa compensação temporal, peço até desculpas publicamente a quem ouviu as "abobrinhas" defensivas de minha parte que alegava que não havia essa necessidade.
Somente depois da experiência de visitar várias Unidades do Cras : Centro de referência da assistência Social, com palestras sobre o meu Livro Ecstasy e após ter visitado alguns presídios fazendo um trabalho de campo para o documentário "Os maiores Crimes de Todos os tempos" que me dei conta da real necessidade da criação das cotas.
Hoje afirmo... As Cotas para Negros Precisam existir! 
Não julgando os benefícios que a constituição federal sempre tenta implantar e ouvir a sociedade na correção das injustiças e na tentativa de uma sociedade mais justa.
Para quem é contra as cotas, sugiro que vá passar 1 dia apenas, nas comunidades que abrigam a maioria e que muitos chamam favelas ou que passe um dia, apenas um dia, em um presídio, para entender a gravidade e a urgência de mudanças.
Ser Pobre é um Problema, mas ser pobre e negro, é um estigma social profundo.
Quando comecei esse trabalho com o Cras, enchia o peito para dizer que eu era Negra e no entanto, sem o uso de Cotas, cheguei onde eu queria, mas, no entanto, em minha ignorância, não percebia que as mazelas de uma sociedade carente, eram muito mais profundas que simplesmente ser negro.
Não nasci em nenhum berço de ouro, brinco inclusive com minhas filhas, que elas são privilegiadas, em acordar todo dia e ter na mesa, o pão, o presunto, o suco e demais iguarias que muitas vezes rejeitam por não estarem com fome e relembro para as mesmas que eu só tinha manteiga e olhe lá, e no dia de domingo, tinha direito a ovo e queijo e coca-cola, mas só domingo, e ainda assim , percebo hoje o quanto tive uma infância privilegiada. Meu pai era vendedor, tinha épocas boas de grana e épocas péssimas, viajava a semana inteira e só convivíamos nos finais de semana e minha mãe, dona de casa. Então, o caminho para mim não foi fácil, comecei a trabalhar no inicio da minha adolescencia, com 14 anos, já pagava meu curso de inglês, mas tive a sorte de encontrar pessoas que foram abrindo caminhos no meio dos labirinto para eu conseguir passar. Mas, sei o que é não ter dinheiro, não ter opções e ter que segurar a onda muitas vezes sozinha, como mãe, como mulher e como negra, sei de todas as dificuldades, mas, ainda assim era contra as cotas. 
Hoje percebo que não há como exigir de cada menino negro, de cada menina negra neste país que cheguem aonde querem, para se ter uma noção, hoje em dia, em escolas particulares de classe média, você conta nos dedos a quantidade de negros em sala de aula, quando visita unidades carentes, o quadro é o contrário, você conta nos dedos a quantidade de brancos, e é unanime afirmar que vivemos em um país em que a educação pública está muito aquém do que qualquer cidadão pode chamar de educação. O sistema está falido! Professores mal remunerados, com salários atrasados, péssimas condições em sala de aula, banheiros imundos, quebrados, falta de ventiladores em Estados que chegam a apresentar sensação térmica de 48 graus, contra crianças que estudam no ar condicionado, com salas chamadas brinquedotecas, wifi home, tablets de última geração, enfermaria, salinha do descanso,  professores bem remunerados que não precisam fazer greve, cadeiras anatômicas, psicólogos que auxiliam em casas em que os pais brigam ou são ausentes, orientador educacional para conversarem sobre suas vocações e aptidões e toda estrutura para chegar na Escola e passar um dia maravilhoso sem incômodos simplesmente indo fazer ali o que foram designados a fazer: Aprender! 
Em uma dessas visitas um menina negra, veio se despedir de mim e me deu uma flor, e me disse: "Quando eu crescer quero ser igual a você, uma princesa e ter um carro, mas não um carro preto igual ao seu, quero um carro branco, preto é feio" . Essa frase me marcou muito, primeiro por achar que toda menina deve se considerar uma princesa, pois assim via minhas filhas na idade dela e assim as protegia como se pudesse colocá-las em uma alta torre no mais belo castelo, e segundo pela entonação da vida de achar que o Preto é feio. E dali em diante passei a refletir na feia realidade que estas crianças vivem, na luta que deve ser chegar ao ensino médio completo, nos olhares desejosos de bonecas e brinquedos, quando só se tem barro para brincar e latas velhas. 
Os negros não descendem de Escravos, eles descendem de seres humanos que foram escravizados, retirados de suas terras, imaginem hoje, vir uma raça de outro planeta, como já vimos em tantos filmes, nos escravizarem , levarem e sermos nós humanos, sem desigualdade ou raça a escória da sociedade? É exatamente assim que aconteceu com os negros. E se houve a injustiça no passado, hoje a justiça é preciso ser feita, a compensação temporal é necessária, pois esse quadro necessita mudar. 

São 200 anos de espera por igualdade. Os negros sempre estiveram à margem, e agora ganham a força da voz e das redes sociais para a propagação de seus direitos. 


Esse tempo de exclusão já passou, nossa sociedade precisa resolver esse problema com urgência. Educação é o caminho para o fim da violência, para o fim da desigualdade, para o fim do preconceito, mas, em um país que não trata a educação com seu devido respeito, as cotas tornaram-se a solução a longo prazo, pois os negros que hoje alcançam a Universidade, apesar de ainda serem uma minoria, serão os pais que também terão condições de dar boa educação aos seus filhos. 

Pense que há pouco menos de 100 anos atrás, enquanto a sociedade branca exibia-se em seus grandes casarios com suas eiras, beiras e tribeiras, os negros não tinham sequer o direito de comprar uma casa, e mesmo que tivesse dinheiro não podiam e assim seguiam, sem eira nem beira. Hoje, as áreas invadidas nos morros, eram as áreas que podiam ser ocupadas pelos negros, não é porque o negro acha bonita a vista lá de cima é porque era o que tinha pra eles e para os seus direitos, de 60 anos, mais ou menos para cá, que este quadro passou a mudar, mas o preconceito existe até hoje, infelizmente. 

Foi vendo meninos e meninas negros, e negros e pobres, tentando uma chance, sofrendo, brilhando nos olhos uma esperança incômoda diante de tantas amarguras, que fui mudando minha opinião. Não foram argumentos simples de quem nunca encarou a realidade, embora eu sempre convivi com desigualdades, foi passar não um, mas vários “dias na cadeia”. Na cadeia, não é simplesmente na Prisão, no presídio, mas na cadeia deles, na cadeia que a vida os impôs, na cadeia dos pobres, lugar de onde vieram meus pais, de um lugar que hoje tenho certeza que não experimentei. De onde eles vêm, as cotas fazem todo sentido.

Não se descobre ser a favor das Cotas em teses e livros bem encadernados, se descobre encarando o cotidiano dessas pessoas, teses existem até para defender o nazismo. Mas beiram a ignorância quando se percebe que quem as escreveu nunca viveu um dia sequer daquela realidade. Respeito quem é contra, mas convido-o a trocar de lugar por apenas um dia para entender que cotas são necessárias e não um luxo dado a determinada raça. 
Conversar com salas com 500, 1000 crianças e adolescentes pobres, em sua maioria negra, onde te enxergam não como um deles, mas como uma pessoa de sucesso e ver os olhinhos viajarem em suas histórias e seus ouvidos absorverem seus sonhos e os teletransportarem pelo menos por instantes a vida que lhes traga esperança, fez mudar os meus pensamentos. 



Podemos considerar não apenas os deficientes físicos (o que todo mundo aceita), mas também os econômicos, e dar a eles uma oportunidade de igualdade, uma contrapartida para caminharem com seus co-irmãos de raça (humana) e seus concidadãos, de um país que se quer solidário, igualitário, plural e democrático. Não podemos ter tanta paciência para resolver a discriminação racial que existe na prática: vamos dar saltos ao invés de rastejar em direção a políticas afirmativas de uma nova realidade.

Não precisamos que vários Martins Luthers Kings sejam assassinados, não precisamos que novos Malcons X preguem a violência como subterfúgio a segregação, precisamos é que providencias sejam tomadas, e estas providências precisam partir de cada um de nós.  
E não me venham burguesezinhos que moram em outros países para fugir de suas próprias realidades insinuarem que são contra por isso ou por aquilo, pois simplesmente não vivem essa realidade. 
As cotas são uma chance, para quem nunca teve chance alguma, para quem como eu, ou como minhas filhas ou tantos outros negros e descendentes, não tiveram o Plano A e o Plano B, para tomarem decisões. 
Quer presídios vazios? Invista nas cotas, invista em escolas com boas condições, em projetos sociais de integração e aprendizado. 
A educação, principalmente a pública, precisa ser adequada  para que estudem e pelo conhecimento mudem sua história, e a do nosso país pois, afinal de contas, moraremos todos naquilo que estamos construindo. Por que países como a Suécia, fecham as portas de seus presídios por falta de presos? Porque abrem as portas de suas escolas, porque as crianças são alfabetizadas com 5 anos, porque os jovens recebem do governo salários para estudarem, enquanto aqui no Brasil, lamentamos que os filhos dos presos recebem salários quando os pais foram presos. 
As cotas são necessárias, são compensadoras e já provaram que são benéficas a toda sociedade. 
Tenho meus heróis e heroínas negras, três deles me ajudaram muito a pensar como penso hoje. 
Luislinda Valois, hoje Ministra dos Direitos Humanos, Sérgio Carvalho, militante afroparceiros, e João Jorge, presidente do bloco afro Olodum, pessoas que sem preconceito trilharam seus caminhos de sucesso, encontraram seus anjos, seus orixás, seus sonhos e assim são hoje vozes importantes que clamam e lutam por um futuro melhor, à vocês meu agradecimento por terem me tornado uma pessoa melhor e mais esclarecida. 

Com Luislinda Valois - Minha Diva,minha heroína. 
Com Sérgio Carvalho... Amor pra mais de 2 metros. 
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Com João Jorge - Olodum- Respeito por quem sabe chegar!
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Euzinha... 
Izabelle Valladares, escritora, negra, vitória e salgueirense. 
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Um comentário:

  1. Entendo seu ponto de vista e concordo com partes, mas ainda acho que cotas sociais seriam mais justas; assim como há negros bem sucedidos, há branquinhos, amarelinhos, e índios paupérrimos. Mas é só minha opinião, é claro.

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